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                  É justamente desabafando o mais clichê dos meus choros que eu vou explodir em cansaço pelo fim da repetição cíclica dessas crises. Já chega da multiplicação do mesmo jargão, a vontade de superar já é urgente, já é mais penoso reprisar o desanimo do que me rebelar contra ele. Parece irônico, mas é que a essa altura do campeonato ainda tenho muito a perder. Não vale a pena a desincronia de nunca se encontrar em nada pela simples apatia de nunca se colocar onde cabia.    Nesse caso, amanha pretendo acordar segura ao ponto de querer viver. E despertar como que leve, sem protelar todo meu dia, sentir prazer no simples fato de existir e agir tanto e tanto.
  
                   Preciso mudar o paradigma caso pretenda sanar os efeitos que a racionalidade suscitou  no meu espírito. É tudo tão surpreendente. E no mesmo instante vejo os horrores sendo sugados pelo o que eram rarefeitas realizações sinceras, transformadas agora na luz que fundamenta as cores que recebo na retina. Tudo agora fica mais comungável, e eu sinto a esperança não mais como minha inimiga. Não faço progressos. O que vem ocorrendo são movimentos voluntários, porém com conseqüências circulares, inconstantes, improváveis. Não deixam de ser um fruto de produção humana. Melhoro por dentro, não demonstro; demonstro pouco; demonstro lenta e progressivamente.
                  O tempo presente que me proponho a analisar nessas linhas é literal e contemporâneo, é o agora mesmo. E como é difícil se desvencilhar da agencia dos acontecimentos e se fazer um crítico no palco dos espectadores. Réu, promotor e juiz do mesmo acaso. No lugar da culpa, recorro ao apelo pela paz que eu quero, preciso e mereço. Por que as potencialidades existentes dentro do que conceituamos como “agora” são tão vigorosas e efetivas, ao ponto de nosso sentimento mais profundo por elas ser mesmo de medo, mais do que uma sensação de grandiosidade. Mas hoje já está mais quente, e por incrível que pareça a vida está mais calma. Insurgiu mais um daqueles momentos singulares e fugazes onde a seqüência de “acasionalidades” vem a nos beneficiar, surpreender, impor sorrisos e boas noites de sono. E nesse momento, posso me emancipar de toda a tristeza, como que me soltando de um ganchinho incômodo que se mantinha persistente, magoando minhas costas; agora posso me esbaldar no prazer de ser grata a tantos, me preencher desse conforto de pertencimento e segurança; e mais: direciono para a materialidade das minhas ações e daqueles que se comprometem comigo os direitos autorais e todos os seus benefícios, por que quisemos muito e tentamos tanto. E aí todo o prestígio e realização recaem sobre nós. E podemos nos identificar com esses seres avulsos que vivem a vida de maneira plena e equilibrada, que se dão ao delicioso trabalho de sugar sequencialmente coragem nos topos de montes desconhecidos, ainda que tão parte do entorno que nos é cotidiano; e a gente cresce, e é só por estar fazendo isso junto que consegue dar sentido e sentimento pra tudo na vida; não que de fato esqueça quanta podridão está envolvida nessas palavras, mas consegue extrair da experiência sagacidade suficiente pra potencializar metades em realizações completas, e nesse ritmo se liberta pra ir alem, além, além.

 
“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem” (João Guimarães Rosa)

A Miséria das Pendências.

                O controle começa a se aperfeiçoar e vem cada vez mais me escapando entre os dedos. E disso ao mesmo tempo que surgem desesperos novos e intensos eu consigo ver também saídas pelas frestas que antes era temerosa (ou poderosa) demais para permitir que se abrissem.  E do novo ângulo, cada vez mais distante no tempo, eu vi a história parecer dotada de uma linearidade, juro, parecia música. E de tanta lógica que eu visualizei, não me dei ao luxo de compreender que vi o que vi pelo simples fato de que quis ver. E a essa altura meu sistema escatológico já estava todo fundamentado, e agora eu só preciso vir aqui despejar um pouco das (in)compreensões que tanta reflexão vem me reservando:

                No passado, que com a crescente aceleração do tempo já se faz sentir tão distante de hoje, eu pressenti através dos filmes que aquilo que me corroia internamente poderia me acompanhar como uma insígnia maldita por um longo trecho da minha trajetória.  Eu tinha uma dor corrosiva, intensa, constante, de náusea, que me acompanhava pela cidade como um câncer desenvolvido. E se para tantos era só mais uma desilusão de um par mal encontrado e finalmente desiludido, para o tempo o acontecimento foi tomando proporções cada vez complexas. O mundo inteiro, e eu de certa maneira me deixei levar por isso, se fez cego para analisar o contexto que sustentava o fato, e não pode prognosticar melhor seus efeitos, subestimou sua potência e hoje paga a divida submerso em tanta desorientação.

                Naquela noite eu perdi de você, e o desespero fez com que eu deixasse ali perdido também muita coisa de mim. Hoje tudo parece ingênuo, mas acho mais ingênuas as atuais expectativas de algo tão maduro para tanta inexperiência e solidão daquele ontem. Eu edifiquei sobre uma estrutura que podemos definir basicamente por “nós” toda a minha existência: o meu projeto pro mundo, as minhas expectativas e sonhos, o sentido das minhas ações, a ideologia das minhas frases, a temática das minhas leituras, o norte dos meus esforços íntimos, os temperos dos meus pratos; e lá do alto te senti suspender as coisas, e caí pela vida tão sem jeito. Estraçalhada, desmoronando enquanto atravessava as ruas tão inúteis, dolorida no corpo todo como uma injustiçada, na minha identidade eu passei a ser uma indigente, não havia mais pertencimento de nada.

                E você em crise quando eu não comia. Pra que, qual o sentido de alimentar algo que não se propõe enquanto ser¿ Eu desisti de tudo depois que você subjulgou as minhas utopias, depois que você trucidou com os nossos discursos mais apaixonados pela noite com todo o seu egoísmo. Você imperou todo autoritário assim que me viu abaixo e disponível, e isso nos fez chorar quando notamos tanta semelhança entre nós e a estrutura que compartilhávamos de odiar. Daí em diante nem os meus ódios faziam mais sentido; eu me via obrigada a reinventar todos os meus códigos, refazer as regras de conduta a partir de novas referencias. Você, as criações que faríamos juntos, eram a materialização de tudo aquilo que eu havia sincera e lucidamente escolhido pro meu caminho. Caminhava saltitante com esse pacote na bolsa, distraída, satisfeita, acomodada, quando fui violentada pelo cheio podre que saía dos meus mais importantes troféus. Eu mal sabia andar quando nos despedimos e tranquei a porta atrás de ti.

                E foi avassalador, mas nada que tanta gente não tenha passado, revisitado, compreendido. Se fosse um instante... mas como seria após dinamitar as bases das minhas concepções mais balizares¿ Você foi canalha o bastante para invalidar toda a minha epistemologia.  Me sentindo abandonada, nem cabia ficar me lamentado perante o erro de ter depositado das costas de outrem o sentido de toda a minha existência. A problemática que se apresentava era tal que as causas nem eram mais discutidas: era urgente que eu composse um sentido para a minha história caso quisesse continuar existindo.

                Dessa nova busca, depois que você definitivamente se foi, eu edifiquei um ídolo: A Racionalidade. E coloquei uma lógica tão precisa em toda a História humana, transportei esse sistema globalizante pros meus dias, meus atos. E o que a princípio foi um suspiro aliviado - já que de fato a razão é fértil de sentimentos de estabilidade , temperança e progresso - se mostrou um desastre: como enquadrar neuroticamente determinado sistema a todas as ações humanas que vem a me atingir direta ou indiretamente, pelo simples fato de que eu mesma acho coerente¿ Não contava com ter que convencer um mundo de que as minhas propostas otimizam as nossas trajetórias. Eu só queria existir com um pouco mais de paz e verdade. Veio a humanidade em marcha e pisoteou meus pedidos. Faz tanto tempo, mas o hoje é de alguma maneira um retorno: por que desde que você desistiu de mim e de todas as minhas necessidades eu nunca mais tive sucesso ao tentar edificar sentido em existir. E isso é tão deprimente, tardio, quase romântico. É ineficaz, deprimente, burguês, imaturo. E me vejo cercada desses adjetivos por todos os lados, a auto-estima não tem mais em que se sustentar. Derrotista, eu continuo existindo com espasmos sistemáticos de completo desinteresse desde que você partiu irresponsável levando a minha última certeza.

 

 

 

 

Nasceram flores num canto de um quarto escuro
Mas eu te juro, meu amor, são flores de um longo inverno

(Isso é pra morrer)

Você me falou eu estava lá e falei
E você me falou de uma casa pequena
Com uma varanda, chamando as crianças pra jantar...

Isso é pra morrer!
6 minutos
Instantes acabam a eternidade
Isso é pra viver
Momentos únicos
Bem junto na cama de um quarto de hotel.

Otto.

Quando guerra é paz.

Não amanheceu ainda por que tudo vai insistir em permanecer estático enquanto eu não admitir o caráter combativo das minhas escolhas. Tudo aquilo que dentro de mim é amor e que entre os meu faz sentido, ainda que eu leve isso de uma maneira velada, é uma séria afronta à ordem do mundo. E aí o paradoxo: meu estereótipo encharcado da revolução, minha autoconsciência apodrecendo alienada. E isso não interessa. De mim para dentro não existem juízos e o jogo tem as cartas ainda mais marcadas. Eu preciso é me lembrar constantemente que é um choque para o mundo ver meus cachos loiros caminhando sem elegância, desestimulados com as vitórias, exclamando palavrões, sempre sem dinheiro,faltando com a responsabilidade, dizendo que fumam.

Vejam bem como é insuportável: minha proposta de respeito e tolerância perpassa a necessidade de aceitar que enquanto outro sou obrigada a me ver podada justo nas minhas mais altas realizações. Não construí barricadas dos pneus esquecidos na rua, mas me edifiquei na tangente da estética e da ética da vida contemporânea. E me vejo obrigada a soar o alarme para organizar esse front intero, ainda que a contra gosto, ou me verei sempre subjugada nas minhas mentiras, ainda que essas sejam tão sinceras.

Ter que batalhar pela legitimação da minha personalidade destoante é algo com que a minha astúcia não contava.  Posso até sentir revolta, mas ainda sou ingênua. Porém, verbalizar a Guerra Civil é quase uma estratégia para começando as atividades tão cedo verificar seu fim ainda antes. É urgente o prazo para a definição do caminho, por que mantendo tanta passividade, hoje a noite quero dormir e já não posso. Quero ser algo que não encontro. Quero me desvencilhar do meu próprio tempo. E fico acordada por que quero ter os olhos bem abertos para enxergar ao vivo as cores dos meus sonhos. Espero ansiosa a entrada em marcha através dessas parede de todas as minhas utopias. E vivo uma semana de insônia inspirada na angústia daqueles que um dia esperaram em frente ao rádio um anúncio de tempos de paz.

Sobre a conquista.

Hoje o dia se construiu como uma consolidação dos amparos. E agora vivo uma insônia eufórica tão inédita, justo por ser composta por essa nunca antes experenciada sensação das contas em dia. Como num efeito cascata vejo as minhas dívidas irem sendo pagas, e não posso deixar de admitir que por isso eu batalhei; ao mesmo tempo que nunca estive só. A minha virtude é minha capacidade de nunca me manter imóvel. Vejo mérito nas minhas novas práticas não por já saber ir atrás daquilo que realmente necessito, mas já tenho a sabedoria ao procurar as pistas. A organização que tanto atormentou parece se cansar dos antigos rótulos e aparece como uma facilitadora. E aceito as mazelas de uma maneira tão mais tranqüila, e o inesperado é como isso me atinge no sentido de me fazer mais ativa, já que acalmada a aflição das frustrações sou capaz de lidar com elas num sentido mais propositivo. E rotineiro agora é domesticar esses monstros internos com uma facilidade quase óbvia. Pode até destoar do poema todo, mas o caso é que eu enchi o saco de me lamentar. E seguir vendo sentido nos esforços, chego a suspirar em pensar, parece algo como estar realizando na prática e na íntegra um aspecto do que eu acredito pro mundo. Essa agência pelos anseios, um desapego sistemático dos medos, um expandir crônico do espírito, o cultivar de uma proximidade tranqüila, já que baseada na autonomia, tudo isso consolidei na minha trajetória. Sinto-me como quem bóia tranquilamente nas águas de uma lagoa infinita, e isso na verdade nem faz tanto sentido. É só pra ilustrar o êxtase de estar vivenciando sensações nada corriqueiras, raríssima vezes presenciadas, nunca ainda de maneira contínua. Liberto o impulso e me projeto a partir do amparo concreto dos meus. E essa noite mais uma vez vou dormir me sentindo invencível.






Vives tua vida da forma como queres,
mas não da forma como mereces,
então sai deste frio e entre,
abra a porta de tua esperança perdida,
pegue o caminho de volta e volte,
volte para a liberdade de sua vida.

Adilson Costa

Seguindo pistas.

                Sinto tanta dor nos ombros pelo peso das promessas internas com que vim compactuando nos últimos meses. Não é a pressão emitida pela necessidade social de sucesso, mas sim as minhas próprias expectativas sobre o conceito de vida de digna que fazem do futuro uma trajetória árdua, de constantes conquistas. E confesso que sinto dificuldade em me organizar em meio a tão pouca sincronia que eu escolhi para compassar os meus dias (tudo isso por que não pude mais agüentar me ver assassinada pela rotina todo o fim de tarde em que anestesiada cheguei em casa e me percebi alguém mais mansa.)

                Então nessas manhas de fim de verão tudo parece a continuidade inesperada de um ciclo. De hoje pro futuro cabem tantos organogramas de nós mesmos. Eu só queria poder objetivar melhor o amanhã. Ser mais eficiente em criar prognósticos baseada na experiência que só a história nos concede. Mas a multiplicidade contemporânea das escolhas auxilia em me manter apática, e eu já não posso fugir dos estereótipos. Só sei que posso tanto e que recuso misérias. E isso incidi também numa trajetória constante de traumas; sei que não vivi muito, mas penso sinceramente, de todo o coração, que isso vai aos poucos esgotando a gente. É como se tivéssemos de fato negado todo o sistema, porém com isso acabamos perdendo o direito de recorrer a ele para nos manter seguros, sadios e devidamente domesticados, coletivos.

                Tudo que consegui retirar desses indigestos dias que vivi desde que tive que abandonar o mundo (porque se tornou urgente construir meu próprio mundo) foi mais um punhado de perguntas. E isso não me deprimiu ou desesperou, e a alma respirou num alivio, pois isso significava que de alguma maneira que os nossos valores estava sendo mantidos. E a apatia ansiosa vai se dissolvendo junto com o último sol escaldante desse verão tardio.

Vale lembrar que nem tudo foram luzes como essas recentíssimas tardes. Há uma incoerência latente, estrutural que me perturba, e a ansiedade teima em se manter pulsando, e todos nós sabemos que não há café que sacie um peito que se deixa tomado por essa aflição. O fato é que o meu desafio do dia é edificar minha estrutura enquanto ser necessitado de estabilidade, sendo que passo agora pelos dias em que mais prezo o desapego na minha vida. E daí a luta diária da rotina, já tão exaustiva, acaba me mutilando violentamente se além de tediosa ela não for nem capaz de se reservar um sentido. Minha missão é criar um abrigo, futuro seguro. E com isso quero falar das permanências, das  estruturas de longa duração, e daí falamos invariavelmente de situações de apego profundo (na mentalidade, na cultura, nos afetos). Tantos artefatos que eu não tenho a mínima vontade de cultivar agora.

No entanto, depressivo parece ser se olhar cotidianamente como uma velha mimada, incapaz de se impor disciplina e organização por que se acha perfeita demais pras contradições da ciência, dos métodos, formalidades e burocracia. Um posicionamento interessante, porém estéril. Não fomos nós que aderimos tão arduamente a racionalidade¿ Então, mãos a obra. Se não há saída em analisar enfadonhamente o fardo que consiste viver num mundo que se fabrica através de obrigações e não da criatividade, vamos minimizar os efeitos do estrago que é inevitável e potencializar as positividades que são inerentes a todo o processo, basta que se saiba coletar e alimentar nossa simplicidade.

 

“vem, vambora, por que o que você demora é o que tempo leva...”

Revoluções

Recebi como dois socos na cara a opinião alheia sobre essa eterna condição de solidão, melancolia e intensidade sem sentido. Mas acontece que a gente cresce através do outro, e resolvi aproveitar o impulso. Duas doses de cachaça, de alguma maneira, não parecem dois socos¿ Então vou mudar a metáfora.

                Recebi como duas doses consecutivas de cachaça na nuca a opinião alheia sobre essa eterna condição de solidão, melancolia e intensidade. E a embriagues é como uma perspectiva por onde pude visualizar menos teatralmente a situação. É estranho. Tão interessada em ser racional acabei fechando os olhos para a própria realidade.  Meio trôpega, ironizei os meus medos, ridicularizei a própria humilhação, coloquei humor nas minhas desgraças. O peito relaxado foi então finalmente possível respirar com alguma tranqüilidade. E foi com absoluta surpresa que fui vendo clarear a luz no fim do túnel já tão perto.

O caminho é curto, mas é trabalhoso. Demanda um empenho, responsabilidade e entusiasmo que eu não consigo nem mais lembrar se já tive. E daí a urgência em encontrar sentidos não mais na racionalidade, mas na realidade. Falta aquele passo final rumo a satisfação onde mais do que entender, experencio a noção de que nem tudo se enquadra em um sistema lógico, e menos ainda no meu tempo lógico. As coisas e principalmente eu mesma seremos frutos de contradições incessantes , não importa o quanto isso me perturbe.

                Com a mente hospitaleira para o mundo já tolero tão mais a nossa podridão que posso até respirar. Entrego os pontos, eu vou aderir a multiplicidade das categorias de análise, eu vou me empenhar em ver sentido epistemologicamente no meu riso. Só assim será possível tranqüilizar a existência, tolerar convivências, criar objetivos, manter algum foco.

                E queria deixar bem claro que eu só decidi lutar por conta de um egoísmo, por que quero o máximo possível do mundo dentro da minha experiência. Só que pra extrair tanto do mundo, preciso me revolucionar, reivindicar bem mais de mim, socializar e cultivar com gosto tamanho latifúndio que é a minha essência. Chegou o tempo de renascer em mim.

sobre mim.

                Nunca compreendi bem o porque das coisas, mas até aí nada de muito anormal. Ainda que não seja cotidiano para a maioria refletir acerca da sua absoluta falta de noção, é fato que estamos todos cientes da nossa ignorância, ainda que muitos teimem em nomear de deus o desconhecido. O que acontece de peculiar é que a essa ignorância me incomoda realmente, profundamente, seria um exagero, mas é diariamente. Como criar metodologias para as experiências se não é possível acessar o objetivo de tanto trabalho¿ Não posso direcionar minhas forças e muito menos aprimorar minhas estratégias. Graças a humanidade acabei nascendo muito velha, porém, ainda assim, me sinto alheia enquanto tento decodificar os signos desse ambiente que chamam lar.

                Parece uma lástima reservar tamanha responsabilidade ao acaso, mas de fato é primordialmente dele que todos somos compostos. Minha chegada ao mundo não passa muito de um desvio inconseqüente humano, semelhante àquelas batidas de carro, dinheiro mal gasto, ingratidão. E fruto de tamanha futilidade vim inteira e conquistei o mundo, de certa forma, pode-se definir a vida assim se quisermos nos poupar de detalhes sórdidos. Acontece que de alguma maneira estranha, se é pra estar aqui, sinto que prefiro que seja dessa maneira desorganizada, desequilibrada, improvisada que eu vivo. Me sentindo poderosa como um mal elemento sujo infiltrada em uma grande festa, descaracterizando os conceitos, maltratando as tradições. Essa total falta de identificação ainda que me torture tanto acaba por ser o grande sentido que eu escolhi pra essa passagem. Me sentir desencontrada parece as vezes um vetor pessimista que me impede constantemente de submergir e estrear toda brilhosa para o mundo, mas pensando bem, hoje me parece que ele é a única força que me impede de cair num sofrimento absoluto.

                Numa noite dessas, aconteceu até de um abraço se desmembrar de conforto à prisão. E então atravessei essa madrugada com os olhos abertos focados no teto decorando o texto perfeitamente estruturado que eu declamaria na manha seguinte antes de partir levando tudo de mim. E em seguida, tentando ser histórica acabei caindo num psicologismo. Queria entender que evento desencadeara essa ruptura interna que não me permitia mais interligar com esses sonhos duradouros, seguros, confidentes, tranqüilos, E nessa busca cataloguei traumas e confissões, fatos e interpretações. Não era como se eu não fosse capaz de viver ali naquela cama pelo resto dos dias amando a maneira singular como o lençol se amarrota, as palavras insanas declaradas sonanbulas por dentro da noite, os fluidos, todo esse pacote que chama convívio. É só uma pontinha que me impede de chegar no sono por que fica pulsando lá dentro, querendo ser mais, pedindo desafios, criando dilemas, problematizando as rotinas. Sei que trago desde que me lembro das coisas, um certo instinto por me ver ser capaz de fazer algo realmente bem. E as luzes do mundo lá fora me parecem um convite para experienciar além de mim.

                Por que pode ser gratificante fazer do sentido da vida o incentivo sistemático da insatisfação. Não é um problema que eu solucione fácil, é só o rumo que as coisas acabaram tomando desde que passei a fazer minhas escolhas mais preocupada em levantar perguntas do que em chegar às respostas. Não é também fruto da minha acomodação na minha visão de mundo, o caso é que a partir da racionalidade toda a rota acaba por terminar em uma rua sem saída. Quem sabe, no fundo, eu até quisesse sentar numa poltrona confortável, os dentes exalando realização, os ombros mais altos já que não havia mais nenhum assunto pendente, tudo entrava dentro de um sistema dotado de sentido aos meus olhos, quem sabe eu até sonhe em poder só viver, dessa maneira simples e informal como descrevi agora,  sem carregar nas costas o peso de existir em um meio que não me contempla e que eu abomino. Mas não há perspectiva bem fundamentada que consiga colocar no nosso horizonte de expectativa uma data coerente para esses dias. ‘Tudo tende ao tédio’ não é apenas sonoro, é também científico na atualidade. Daqui pra frente não podemos sonhar em sentir nada para além do medo dos desastres que vamos construir a todo o vapor. O meu sentimento mais profundo para com o mundo é desesperança. E quem sabe é daí que vem as respostas: a melhor maneira de lidar com a finitude e fragilidade de uma experiência é extrair o máximo dela em todos os seus sentidos, sugar toda a sua potencialidade, se aproveitar do que existe nela que serve em nós. E nesse sentimento de experiência única caminhando invariavelmente à extinção em que vivemos é que edifiquei meu espírito tão desapegado, ao mesmo tempo que tão desesperado e egoísta para ter para si o máximo possível do Todo.



"Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão
O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver
E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza
E arriscar tudo de novo com paixão
Andar caminho errado pela simples alegria de ser
Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo."
Belchior.

Irreversível.

Voltei caminhando rebelde por dentro, mas com tanta melancolia nos olhos. E daí um sentimento a alimentar o outro – esse gostinho cretino de pena me incita uma espécie de raiva total. E como se já fosse a hora caminhei sem pressa, por que acredito no irreversível. De tanto já não ser sem tempo, adiar tudo com a lentidão desgostosa dos meus sapatos não significava praticamente nada.

            A cada passo mais próxima, ia premeditando as catástrofes que  apresentaria e analisava suas percas e danos. Os seus olhos tão receptivos que tão rápido eu iria devastar. Me revoltava a minha secura, mas a ânsia pelo novo jamais deixaria clarear certeza mais absoluta. E de toda maneira, foi dolorido, mas bem harmônico. Como na canção, medroso e fingindo não esperar nada, te vi abrir a porta estremecendo ao barulho sentenciador da chave.

 Quando eu atravessava aquela rua, morria de medo
De ver o teu sorriso e começar um velho sonho bom
E o sonho fatalmente viraria um pesadelo
Ali, bem mesmo em frente a um certo bar, Leblon

 

            - Vamos entrar.

            -Não tenho tempo.

            - O que que houve¿

            -O que é que há!¿

            - O que que houve, meu amor, você cortou os seus cabelos¿

            - Foi a tesoura do desejo – desejo mesmo de mudar.  


De noite na cama eu fico pensando...


 

Por que me prender onde não existem sequer as promessas? É uma questão pela qual já me sinto exausta em tentar definir. Raciocinei a manhã toda na intenção de compreender como é possível que eu me de ao luxo de edificar tanto sentimento na fugacidade de uma noite (aquela que foi amanhecendo por entre nossos dedos, em que eu quase podia ouvir a cidade suplicar para que tudo aquilo que tão rapidamente construímos permanecesse). Mas tão isenta de lógica e método, me envergonho. Como combater a brutalidade desse sotaque sem uma argumentação materialista e palpável? Tudo o que carrego é um desespero, uma ideia preconcebida, o senso comum de que as coisas devem ser assim pelo simples motivo de eu desejar muito que assim sejam. É quase como me apresentar sem mini-saia ou maquiagem. É faltar com a minha capacidade, é devolver a ti apenas metade da minha potencialidade, é tratar as coisas com uma obviedade burra. É me despir dos meus encantos e me igualar ao que recriminamos pelas estradas de todo o continente, é anular o que nos fez próximos. Te querer tanto pra mim, é te negar em nós.

E agora tudo o que resta é passar os dias ilhada, mutilada pelos km, pela indiferença. Que caldo melancólico eu fui construir para as próximas noites frias. E que prazer é degustá-lo lentamente, igual fiz com a tua pessoa, se dissolvendo malemolente pelas frestas do meu corpo, que contra a própria vontade se fechava. E o presente é uma rotina em que fico remoendo as possibilidades que deixei se perderem pelos banheiros e portas mal trancadas. E me martirizo como uma ignorante por puro prazer: por que é nos vícios e agonias que a rotina pode fazer sentido. Por que hoje atolados em tantos horários e prazos de entrega, desprovidos daquela imprevisibilidade total que nos rondava no nosso encontro, é impossível viver por inteiro. E como um sintoma contemporâneo, me pego apelando às dores prazerosas pra criar em mim espasmos do que sei que é intenso, mas não levei as ultimas consequências. Seria um arrependimento se não fosse um objetivo. Caminhar com dívidas não é saudável, principalmente quando o lesado não é ninguém alem de si mesmo. Estratejando soluções, resolvi argumentar simplesmente confessando que te colocaria pra dentro num misto equilibrado de técnica e ânsia, e que não durmo nem como decentemente desde que imaginei cada detalhe dessas cenas. Transformei em necessidade aquilo que todos tratam como um espasmo banal que surge e some na nossa trajetória. E me vi louca, por que meu desafio agora é a missão impossível de amenizar distancias.

Quanta crueldade foi ver que tudo acordava, constatar materialmente a sequencia dos ciclos que sempre se mostram indiferentes a todas as nossas urgências. A cidade despertava enquanto abraçados imploramos a imortalidade do que já era ontem. E eu não tenho audácia suficiente para vir cobrar calor na sua fala, que apesar de ser sempre um convite, nunca transmitiu de fato esperança. Nem empenho. Mas e aí, vou berrar atenção como uma criança orfã, sem ninguém efetivo a quem recorrer? Vou borrar com o meu egoismo todo esse estereotipo das minhas mais intimas vontades? Não posso. E de tão medrosa em borrar as bordas, silencio. Não quero implorar projetos, eu só quero efetivar as incomplitudes. Como fazer o mundo compreender que toda essa voracidade é só um espasmo, um desvio? Não existe apego, contuidade, permanecia. Vim aqui toda rota te implorar pelas esmolas, por que ainda assim parece menos pior do que me ver morrendo em ti a cada amanhecer, que seguem ocorrendo tão sequenciais quanto cruéis, ainda que eu implore com os olhos nas estrelas pela eternidade do que se produziu dentro de mim naquela noite. E escolho os astros por que apesar de toda a distancia, o que nos torna comuns é sobreviver sobre o mesmo céu. E numa noite dessas, quem sabe, meu olhar pro alto contemplando distraído o horizonte, pode vir a encontrar o seu, aí no seu mundo, a olhar pra cima, fitando e sendo o mesmo vazio, mas que como o meu, agora vive transbordando de vontade de se preencher.



no meio do caminho havia uma Pedra.

 

                Como um presente estereotipado você caiu sobre mim numa noite imprevisivelmente fria de outro extremo  do chão. Nem pretendo explicar o sentimento que me inundou no minuto em que invadiste o espaço e o contaminasse completamente com o seu espírito.  É complicado explicar, mas eu insisto: é sobre o conjunto que foram os movimentos (as pernas gigantescas sentadas e entreabertas, o espalmar das mãos seguras mantidas juntas), da ironia deselegante que fazes questão de pronunciar, e da voz. Por deus, uma mistura de tom com sotaque nas medidas perfeitas, cada palavra é uma serenata. E seletivo, me destina sempre o certo, ainda que tanto arrisque. Sem meias palavras você invadiu uma noite de sono e transformou tudo em ardências. Delimitou o sentido do sono, amplificou a importância do toque. Eu perco noites só calculando as hipóteses de um possível encontro. E de tão quase certo, pode dar errado. Como aconteciam com os passeios promovidos pela escola, eternamente adiados pela chuva, desorganização, pela morte. De onde surgirá inesperado o ar que gelará tudo o que sobreviveu no último mês virtual no tempo e no espaço¿ Ainda que eu veja tanta utopia nas suas siglas, não é possível que sejamos ingênuos ao ponto de prever eternidades. Não é esse um perigo para nós, e sim o oposto: as possibilidades são tão escassas que as prioridades serão eternamente outras, e nunca sobrará nada de nós para o outro. É uma pena. Por que Tanta compatibilidade separada por 3 mil km é muita crueldade. É como verificar um lapso de desorganização na ordem divina. E no segundo seguinte lembrar-se que não existe deus senão o próprio homem. E ver apenas acaso tanto nas coerências como em tanta distancia. E isso magoa profundamente a alma do ser humano modero, mais também é um combustível. Em tantos km de mundo que ainda tenho pra desbravar, quantos” você” irei abandonar transformada e feliz pelo caminho¿